Da imunoterapia personalizada às novas estratégias contra doenças que desafiam a ciência há décadas, conheça as tecnologias que estão redefinindo o futuro da vacinação.

Imagine uma vacina feita especialmente para o seu tumor. Outra capaz de ensinar o sistema imunológico a reconhecer diferentes variantes do HIV. Ou uma nova vacina contra uma doença que a humanidade tenta controlar há mais de um século.

Isso já não pertence apenas ao campo da ficção científica.

O ano de 2026 trouxe avanços importantes no desenvolvimento de novas vacinas, incluindo resultados históricos contra o melanoma, novas estratégias contra o HIV e uma candidata avançada contra a tuberculose.

Algumas dessas vacinas já existem e estão sendo utilizadas. Outras chegaram às fases finais dos testes clínicos. E algumas ainda precisarão de anos de pesquisa.

Conheça cinco avanços que estão ajudando a redesenhar o futuro das vacinas.

1. Vacina personalizada contra o câncer alcança marco histórico

 

 

Talvez este seja o avanço mais impressionante da lista.

Em agosto de 2026, Moderna e Merck/MSD anunciaram resultados positivos de fase 3 da Intismeran autogene (V940/mRNA-4157), uma vacina terapêutica personalizada de mRNA contra o melanoma.

Ela não é uma vacina tradicional destinada a impedir que uma pessoa saudável desenvolva câncer.

O tratamento é produzido de maneira personalizada a partir das mutações encontradas no tumor de cada paciente. A ideia é ensinar o sistema imunológico a reconhecer características específicas das células cancerígenas e atacá-las.

No estudo de fase 3, que envolveu 1.137 pacientes com melanoma de alto risco removido cirurgicamente, a vacina foi utilizada em combinação com o imunoterápico pembrolizumabe (Keytruda).

As empresas anunciaram que a combinação conseguiu melhorar significativamente o tempo sem recorrência da doença e reduzir o risco de metástases à distância em comparação ao uso do Keytruda sozinho. Os números detalhados do estudo de fase 3 ainda serão apresentados à comunidade científica.

E há outro dado animador.

Resultados de acompanhamento de cinco anos do estudo anterior, de fase 2b, mostraram redução de 49% no risco de recorrência ou morte e de 59% no risco de metástase à distância ou morte com a combinação, em comparação ao Keytruda isoladamente.

Isso não significa que surgiu uma “vacina que cura o câncer”. Trata-se de uma terapia para pacientes com um tipo específico de melanoma, e ainda depende de avaliação regulatória.

Mas o resultado representa um marco importante para as vacinas personalizadas contra o câncer.

2. A tecnologia de mRNA chega também à gripe

A tecnologia de RNA mensageiro que ganhou fama mundial durante a pandemia de Covid-19 continua sendo estudada para outras doenças.

Uma delas é uma velha conhecida: a gripe.

A vacina mRNA-1010, da Moderna, apresentou resultados positivos em estudo avançado, com desempenho superior ao de uma vacina convencional contra influenza em adultos com 50 anos ou mais.

Em junho de 2026, um comitê consultivo da FDA votou 9 a 0 considerando que os benefícios da vacina superavam seus riscos para pessoas a partir dos 50 anos.

A importância vai além da gripe.

A plataforma de mRNA permite desenvolver vacinas de maneira diferente das tecnologias tradicionais e pode facilitar atualizações quando os vírus sofrem alterações.

A Covid-19 pode ter apresentado o mRNA ao grande público.

A gripe pode ajudar a mostrar até onde essa tecnologia consegue chegar.

3. Tuberculose: uma nova vacina depois de mais de 100 anos?

A BCG começou a ser utilizada há mais de um século e continua extremamente importante, principalmente na proteção das crianças contra formas graves da tuberculose.

Mas pesquisadores procuram há décadas uma vacina capaz de oferecer melhor proteção contra a tuberculose pulmonar em adolescentes e adultos.

Uma das candidatas mais avançadas é a M72/AS01E.

Em um estudo anterior de fase 2b, a candidata apresentou eficácia de aproximadamente 50% contra tuberculose pulmonar confirmada entre adultos infectados pelo Mycobacterium tuberculosis que não apresentavam HIV.

Agora ela está sendo avaliada em um grande estudo clínico de fase 3.

Se os resultados confirmarem sua eficácia e segurança e ela for aprovada, poderá representar a primeira nova vacina contra a tuberculose introduzida em mais de um século e a primeira especificamente voltada para adolescentes e adultos.

Em uma doença que continua matando milhões de pessoas ao redor do mundo, esse seria um avanço enorme.

4. HIV: cientistas começam a ensinar o sistema imunológico passo a passo

Criar uma vacina contra o HIV é um dos maiores desafios da imunologia moderna.

O vírus sofre mutações rapidamente e possui mecanismos sofisticados para escapar das defesas do organismo.

Por isso, uma das estratégias mais interessantes atualmente não tenta simplesmente provocar qualquer resposta imunológica.

Os pesquisadores querem treinar determinadas células do sistema imunológico passo a passo, fazendo com que elas desenvolvam anticorpos capazes de neutralizar diferentes variantes do HIV.

São os chamados anticorpos amplamente neutralizantes, ou bNAbs.

Em janeiro de 2026, pesquisadores iniciaram um novo estudo clínico de fase 1 utilizando uma estratégia conhecida como germline targeting, desenvolvida a partir de resultados positivos de pesquisas anteriores.

Outro estudo publicado em 2026 demonstrou a geração de anticorpos capazes de neutralizar amplamente diferentes variantes ao mirar uma região conservada do envelope do HIV, reforçando a possibilidade científica dessa abordagem.

Ainda estamos longe de poder dizer que existe uma vacina contra o HIV pronta para uso.

Mas os cientistas parecem estar aprendendo algo fundamental:

como ensinar o sistema imunológico a enxergar justamente os pontos do HIV que o vírus tem mais dificuldade de esconder.

5. Vacinas contra a malária começam a mostrar impacto no mundo real

Aqui a história é diferente.

As vacinas contra a malária já saíram dos laboratórios.

A Organização Mundial da Saúde recomenda atualmente duas vacinas para crianças em áreas onde a doença representa risco importante: RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M.

Em 2026, novas evidências reforçaram o impacto dessa estratégia.

Segundo a OMS, os dados de implementação da RTS,S mostraram redução substancial de casos e mortes por malária em crianças pequenas, enquanto a expansão das vacinas RTS,S e R21 pode salvar dezenas de milhares de vidas todos os anos.

É uma conquista particularmente importante porque a malária é causada por um parasita, e não por um vírus ou bactéria, tornando o desenvolvimento de uma vacina especialmente complexo.

O desafio agora não é apenas desenvolver vacinas melhores.

É fazer com que elas cheguem às crianças que mais precisam delas.

O que esses cinco avanços têm em comum?

Talvez a maior mudança esteja no próprio conceito de vacina.

Durante muito tempo, pensamos em vacinação principalmente como uma forma de prevenir uma doença infecciosa antes que ela aconteça.

Essa definição está ficando pequena.

Hoje existem pesquisas utilizando vacinas para ensinar o organismo a atacar tumores, plataformas de mRNA que podem ser rapidamente adaptadas, estratégias que conduzem células imunológicas por etapas e vacinas desenhadas para enfrentar parasitas extremamente complexos.

O futuro pode incluir até tratamentos feitos sob medida para a biologia de cada paciente.

Mas é importante separar ciência de expectativa.

Vacina experimental não significa vacina aprovada. Resultado positivo em um estudo não significa cura. E uma tecnologia promissora ainda pode fracassar nas etapas seguintes da pesquisa.

Esse cuidado torna os avanços de 2026 ainda mais interessantes: alguns deles já ultrapassaram barreiras que, poucos anos atrás, pareciam muito distantes.

A medicina está descobrindo novas maneiras de usar o próprio sistema imunológico contra algumas das doenças mais difíceis de enfrentar.

Você imaginava que uma vacina personalizada contra o câncer já pudesse chegar à fase 3 de testes?

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Nota Corpo São

Os avanços apresentados nesta matéria estão em diferentes etapas de desenvolvimento. Algumas vacinas já são utilizadas, enquanto outras permanecem em testes clínicos e ainda não estão disponíveis ao público. Resultados promissores não significam aprovação ou cura. O Corpo São acompanha a evolução dessas pesquisas e recomenda sempre buscar orientação de profissionais de saúde e informações de fontes científicas e órgãos oficiais.