Pesquisadores descobriram que a sildenafila, princípio ativo do Viagra, pode interferir em um mecanismo usado por células cancerígenas para se espalhar pelo organismo. Os resultados são promissores, mas o medicamento ainda não é um tratamento contra o câncer.
Durante décadas, o Viagra ficou mundialmente conhecido por uma finalidade muito específica: tratar a disfunção erétil.
Agora, seu princípio ativo, a sildenafila, está chamando a atenção dos cientistas por um motivo completamente diferente.
Um estudo publicado em julho de 2026 na revista científica Cancer Research encontrou evidências de que medicamentos que inibem a enzima PDE5A, entre eles a sildenafila, podem reduzir a capacidade de células cancerígenas migrarem e formarem metástases.
A descoberta envolve algo aparentemente distante do Viagra: o colesterol dentro das células tumorais.
E é justamente aí que a história fica interessante.
O que o Viagra tem a ver com o câncer?
A sildenafila pertence a uma classe de medicamentos conhecidos como inibidores da PDE5. Ao bloquear essa enzima, o medicamento aumenta os níveis celulares de uma molécula chamada cGMP.
Os pesquisadores descobriram que esse aumento pode provocar um efeito inesperado nas células cancerígenas.
O cGMP interfere no funcionamento da NPC1, proteína envolvida no transporte do colesterol para fora dos lisossomos, estruturas celulares que funcionam, de maneira simplificada, como centros de processamento e reciclagem.
Com esse transporte prejudicado, parte do colesterol fica presa dentro dos lisossomos e menos disponível para outras funções da célula tumoral.
Mas por que isso poderia afetar uma metástase?
O câncer também precisa de colesterol
Quando ouvimos falar em colesterol, normalmente pensamos em exames de sangue e doenças cardiovasculares.
Dentro das células, porém, o colesterol desempenha funções fundamentais. Ele participa da formação e organização das membranas celulares e de diferentes processos metabólicos.
Para uma célula cancerígena conseguir sair do tumor original, migrar pelo organismo e colonizar outro tecido, ela precisa realizar mudanças estruturais e consumir energia.
O estudo mostrou que, ao dificultar a disponibilidade do colesterol, a inibição da PDE5A prejudicou estruturas da membrana celular e a produção de energia nas mitocôndrias.
O resultado foi uma redução da capacidade de migração e disseminação das células tumorais em diferentes modelos experimentais humanos e animais.
Em outras palavras, os pesquisadores encontraram uma possível vulnerabilidade metabólica das células cancerígenas.
E as metástases?
A metástase acontece quando células malignas conseguem deixar o tumor original, alcançar outras regiões do organismo e formar novos tumores.
É uma das etapas mais graves da progressão do câncer e está associada a grande parte das mortes provocadas pela doença.
Nos modelos animais estudados, a sildenafila foi associada a menor carga metastática. Experimentos com células cancerígenas também mostraram redução da migração celular.
Isso não significa, entretanto, que o Viagra tenha sido comprovado como medicamento capaz de impedir metástases em pessoas.
Essa diferença é fundamental.
O estudo encontrou algo ainda mais curioso

Os pesquisadores perceberam que as células tumorais tentavam reagir à falta de colesterol aumentando sua própria produção.
Foi então investigada uma combinação interessante: sildenafila e estatinas.
As estatinas são medicamentos utilizados principalmente para reduzir o colesterol e atuam inibindo sua produção.
Assim, enquanto a sildenafila dificultava o transporte e a disponibilidade do colesterol dentro da célula, as estatinas atingiam outra fonte: sua produção.
Nos experimentos, a combinação apresentou efeito antimetastático adicional.
É uma estratégia que chama a atenção porque envolve medicamentos já conhecidos pela medicina.
Mas isso também não significa que pacientes com câncer devam combinar Viagra e estatinas por conta própria.
E em seres humanos?
Aqui está uma das partes mais interessantes, mas que também exige cautela.
Além dos experimentos, os pesquisadores analisaram registros digitais de saúde de pacientes e observaram melhor sobrevida entre pessoas com câncer que utilizavam sildenafila. A associação apresentou benefício adicional relacionado à dose quando o medicamento aparecia combinado com estatinas.
É um resultado importante, mas estudos observacionais encontram associações.
Eles não conseguem provar, sozinhos, que a sildenafila foi responsável pelo aumento da sobrevida.
Pessoas que utilizam ou não determinado medicamento podem apresentar diferenças de idade, estado geral de saúde, doenças associadas, tratamentos recebidos e diversos outros fatores.
Para saber se a sildenafila realmente melhora os resultados do tratamento contra determinados tipos de câncer, serão necessários ensaios clínicos controlados.
Então o Viagra combate o câncer?
Ainda não podemos dizer isso.
O estudo não demonstra que tomar Viagra previne câncer, cura tumores ou impede metástases em pacientes.
O que os pesquisadores descobriram foi um mecanismo biológico potencialmente importante pelo qual a inibição da PDE5A pode limitar a capacidade metastática das células cancerígenas.
A pesquisa abre caminho para investigar se um medicamento já amplamente conhecido pode, futuramente, ser reposicionado para uma finalidade completamente diferente daquela para a qual é utilizado atualmente.
Essa estratégia é conhecida como reposicionamento de medicamentos.
A vantagem é que fármacos como a sildenafila já possuem décadas de utilização clínica e muitas informações sobre farmacologia e segurança. Isso, porém, não elimina a necessidade de demonstrar eficácia e segurança especificamente no tratamento do câncer.
Por que essa descoberta chama tanta atenção?
Porque talvez o ponto mais importante não seja simplesmente o Viagra.
É a descoberta de uma possível fraqueza metabólica das células tumorais.
Ao mostrar que interferir no transporte do colesterol pode dificultar processos necessários à disseminação do câncer, os pesquisadores revelam um caminho que poderá ser explorado por outros medicamentos e estratégias terapêuticas.
O próprio estudo conclui que aumentar os níveis de cGMP por meio da inibição da PDE5A representa uma estratégia potencial para restringir metástases, e não um tratamento já estabelecido.
Um velho medicamento, uma nova possibilidade
A história da sildenafila já é marcada pelo reposicionamento.
O composto foi originalmente estudado para problemas cardiovasculares. Durante o desenvolvimento clínico, seus efeitos sobre a ereção chamaram atenção e acabaram levando ao medicamento que se tornou mundialmente conhecido como Viagra.
Décadas depois, a mesma molécula volta aos laboratórios sob outra perspectiva.
Desta vez, os pesquisadores querem descobrir se sua ação sobre uma enzima e sobre o metabolismo celular poderá ajudar a enfrentar um dos maiores desafios da oncologia: a disseminação do câncer pelo organismo.
Ainda existe uma distância considerável entre uma descoberta experimental e um novo tratamento disponível no consultório.
Mas é justamente assim que muitos avanços da medicina começam: uma molécula conhecida, uma pergunta diferente e um mecanismo que ninguém havia percebido antes.
Nota Corpo São
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. Sildenafila não é atualmente um tratamento estabelecido para prevenir ou combater metástases, e pacientes com câncer não devem iniciar, suspender ou combinar medicamentos com essa finalidade sem orientação da equipe médica responsável.
Fontes científicas
O estudo principal, “PDE5a Inhibition Restricts Cancer Metastasis by Disrupting NPC1-Mediated Cholesterol Trafficking Through a Non-canonical cGMP-Dependent Pathway”, foi publicado online em 14 de julho de 2026 na revista Cancer Research, da American Association for Cancer Research. O trabalho reúne pesquisadores do Weizmann Institute of Science, Tel Aviv University, National Cancer Institute e outras instituições.
Estudo científico original — Cancer Research, 14 de julho de 2026
PDE5a Inhibition Restricts Cancer Metastasis — Cancer Research/AACR
É a fonte principal da matéria. O estudo relata redução da migração e metástase em modelos experimentais e descreve o mecanismo envolvendo PDE5A, cGMP, NPC1 e colesterol.
PubMed — registro oficial do artigo
Estudo sobre sildenafila e metástases no PubMed
PMID 42446922. O resumo confirma os experimentos com modelos humanos e animais, além da análise de registros de saúde envolvendo usuários de sildenafila.
Divulgação da pesquisa pelo Weizmann Institute of Science
Viagra may reduce cancer metastasis, study shows
A reportagem científica apresenta a descoberta da equipe da professora Ayelet Erez e explica como a sildenafila pode limitar a disponibilidade de colesterol utilizada pelas células cancerígenas.