Dra. Michele de Andrade Gouveia
Psicóloga e Sexóloga
Introdução
A pornografia sempre foi uma forma de entretenimento adulto. Com o avanço da tecnologia na era digital, seu uso aumentou significativamente, especialmente durante e após a pandemia.
Pesquisas recentes nas áreas da psicologia e sexualidade não utilizam o termo vício em relação à pornografia, pois o mecanismo da adição é diferente. Em vez disso, adotam o conceito de uso problemático, relacionado ao controle de impulsos e caracterizado como um comportamento compulsivo.
Quando o uso se torna um problema
De acordo com o Código Internacional de Doenças, os critérios para o transtorno do comportamento sexual compulsivo incluem:
- Padrão persistente de falha no controle de impulsos ou comportamentos sexuais intensos e repetitivos
- Duração mínima de seis meses
- Priorização da atividade sexual em detrimento de responsabilidades
- Sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento
- Tentativas frustradas de reduzir esse comportamento, mesmo diante de consequências negativas ou diminuição da satisfação sexual
O problema surge quando:
- A frequência de uso aumenta e interfere na rotina
- Outras formas de intimidade são prejudicadas
- O repertório sexual se limita ao conteúdo consumido
- Surgem mentiras, isolamento ou sofrimento
- A pessoa sente que perdeu o controle
Pornografia sempre faz mal
As evidências científicas mostram que nem todo consumo é prejudicial.
- O uso frequente, isoladamente, não é necessariamente problemático
- A maioria dos usuários não apresenta prejuízos
- Pode funcionar como estímulo sexual e apoio à erotização do casal
Por outro lado:
- O uso problemático costuma estar associado a transtornos mentais ou dificuldades nos relacionamentos
- Pode se tornar uma forma de regulação emocional
- Pode substituir habilidades sociais importantes
- Casais em dificuldade podem usar como compensação
- Há risco de normalização de violência contra mulheres e minorias
Por que algumas pessoas sofrem mais
O impacto não depende apenas da frequência, mas do significado que a pessoa atribui ao comportamento.
Duas pessoas podem consumir pornografia com a mesma frequência e ter efeitos completamente diferentes.
Possíveis impactos do uso problemático
Quando há excesso ou perda de controle, podem surgir:
- Disfunções sexuais
- Menor satisfação nas relações
- Problemas no relacionamento
- Sensação de solidão
- Sofrimento psicológico como ansiedade, depressão e irritabilidade
- Dificuldades de concentração e produtividade
Como a terapia sexual atua
O terapeuta sexual avalia cuidadosamente:
- A função do comportamento sexual
- O contexto em que se torna problemático
- As consequências do comportamento
- Os gatilhos emocionais e comportamentais
- Os fatores que mantêm o padrão
- O impacto na vida pessoal
- Influência de crenças, religião e valores
- Papel da família e do relacionamento
- Experiências anteriores relacionadas à sexualidade
Objetivos do tratamento
- Restabelecer equilíbrio no comportamento sexual
- Reduzir sofrimento e prejuízos
- Diferenciar uso saudável de uso problemático
- Promover uma visão positiva da sexualidade
- Reduzir riscos comportamentais
Conclusão
O foco da terapia sexual é desenvolver uma relação saudável com a própria sexualidade.
Se houver sofrimento, dúvidas ou impacto na vida pessoal ou nos relacionamentos, buscar ajuda profissional é um passo importante.
Créditos da Autora
Dra. Michele de Andrade Gouveia
Psicóloga e Sexóloga
CRP 08 15277
Sobre a autora:
Michele Gouveia, é mestre em Psicologia Forense e atua como Psicóloga Clínica, especializada em Terapia Comportamental e Cognitiva e em Sexologia Aplicada, com formação em Terapia Cognitiva Sexual.
Enquanto psicoterapeuta atende demandas que envolvem transtornos emocionais, comportamentais, relacionais e sexuais.
Contatos: www.michelegouveiapsi.com @psicologa_michelegouveia
Nota Corpo São
Apesar deste artigo ser escrito por um profissional, seu conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo acompanhamento psicológico individualizado.
O Corpo São recomenda a busca por profissionais qualificados em casos de sofrimento emocional ou dificuldades relacionadas à sexualidade.
Referencias :
Barbieri Filho A, Feijó DP, Fraga DS, Martins CM, Abdo CHN.
Comportamento sexual compulsivo: um transtorno do impulso. Debates
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Campbell et al. Compulsive sexual behavior disorder (CSBD) and problematic pornography use (PPU): A comprehensive, interdisciplinary, and expert-informed narrative review with suggested future directions. Disponível em: Journal of Behavioral Addictions
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Doi: 10.3389/fpsyt.2025.1621136