Por Jeanine Wandratsch Adami— Psicóloga.
É surpreendente observar o desprendimento com que as crianças exploram seu meio em direção ao desconhecido. Seus erros fazem parte da experiência e elas não sentem vergonha, e sim o desejo de continuar sua exploração. A criança quer brincar, experimentar. Tudo é novo e intrigante. Ela abre seu caminho no mundo, vendo, ouvindo, respondendo.
O mistério que busca é ela mesma. Essa procura é mais visível e intensa na infância. Esta fase proporciona informações valiosas que enriquecem nossa vida futura. Precisamos manter algum sentido infantil de admiração, risco, confiança, espontaneidade, mistério, fantasia. É importante que sejamos carinhosos e pacientes com nossa criança interior à medida que vamos descobrindo as marcas negativas que ficaram dentro de nós.
Um dos fatores mais importantes para nos tornarmos inteiros, é aceitarmos plenamente as partes de nós mesmos, tanto positivas quanto negativas. Desde a mais tenra infância, a criança geralmente é criticada, pois nem sempre tudo o que faz está certo. Ela passa a ter medo de fazer qualquer coisa por conta própria, sendo apreciada ao seguir regras estabelecidas por outros.
O medo é o maior obstáculo para o aprendizado total, afetando nossa capacidade de atuar naturalmente. A maioria de nós tem medos – do fracasso, do ridículo e outros –, que podem ser racionais ou não. Ao ampliarmos nossa consciência, tanto interna quanto externa, os medos ficam acessíveis para serem compreendidos. Ao fazermos uso de nosso potencial interior, contatamos com a força que nos impulsiona a viver.
Uma das maneiras de conseguirmos expandir a consciência é contatarmos com nossa criança interior que percebe as coisas por inteiro, movimenta-se livre e espontaneamente, sem receios e limitações. Essa criança nunca se perde, ela é apenas afastada por nossa mente adulta, que fica presa ao passado ou futuro, alienada do presente. Cada um de nós possui habilidades e conhecimentos que podemos redescobrir e evocar para enriquecermos e equilibrarmos nossa vida. Todo mundo traz dentro de si um mistério que deve ser compreendido e uma capacidade que deve ser manifestada.
Nossas crianças internas desaparecem porque começam a perder a graciosidade e ritmo natural, aprendendo comportamentos artificiais. Ao olharmos para nossa criança interna, acrescentamos vida à parte consciente de nossa personalidade, inspirando e despertando seu poder. A pureza da criança nos aproxima de nossa sabedoria, permitindo-nos viver muito mais em contato com o plano psíquico.
Esse processo é comparado ao de uma semente, que pode se transformar no que é capaz de ser e no que já existe dentro dela. Cabe a nós fazermos a própria vida e começar a construí-la a partir do ponto em que estamos. Resgatar partes de nosso eu abandonado coloca-nos num caminho libertador que nos leva a ver a nós mesmos com honestidade. Capacita-nos a abrir comportas positivas de autoapreciação e satisfação. Assim, liberamos a energia e a empregamos para viver mais plenamente.
Sobre a autora
Psicóloga Jeanine Wandratsch Adami CRP-08/0752
Créditos da publicação original
Artigo publicado no jornal Guabiruba, em 11 de outubro de 2013.
Nota Corpo São
Este artigo apresenta uma reflexão sobre o autoconhecimento, a aceitação pessoal e a importância de preservar aspectos da espontaneidade infantil ao longo da vida. O conceito de criança interior é utilizado em diferentes abordagens psicológicas como uma forma de compreender experiências e emoções relacionadas à infância.