Por Bianca dos Santos Scheifer – Neuropsicóloga CRP 08/20316
https://bit.ly/m/biancascheifer
Olá, pais e cuidadores! É um prazer estar aqui novamente para continuarmos nossa jornada pelo fascinante mundo do neurodesenvolvimento infantil. No nosso último encontro, conversamos sobre o poder dos primeiros 1000 dias e como a gestação e os primeiros dois anos de vida formam o alicerce de quem nossos filhos serão. Hoje, vamos tocar em um ponto que é, ao mesmo tempo, uma ferramenta onipresente e um dos maiores desafios da parentalidade moderna: as telas.
Vivemos em uma era digital, e é inegável que smartphones, tablets e televisões fazem parte do nosso cotidiano. No entanto, quando olhamos através das lentes da neuropsicologia, precisamos fazer uma pausa e refletir: o que acontece no cérebro de um bebê de 0 a 3 anos quando ele é exposto a esses dispositivos? Como especialista, meu objetivo hoje não é julgar, mas sim oferecer clareza e estratégias para que possamos proteger a arquitetura cerebral dos nossos pequenos enquanto navegamos neste mundo conectado.
A Biologia da Atenção: Por que as Telas são tão Magnéticas
Para entender o impacto das telas, precisamos primeiro entender como o cérebro do bebê funciona. Nos primeiros três anos, o cérebro está em um estado de “fome por estímulos sensoriais reais”. Ele precisa do toque, do cheiro, do movimento tridimensional e da interação humana para se organizar.
As telas oferecem um tipo de estímulo chamado superestimulação. As cores vibrantes, as trocas rápidas de cena e os sons agudos ativam o sistema de recompensa do cérebro, liberando doses de dopamina.
Para um cérebro em formação, isso funciona como um “fogo de artifício constante”. Com o tempo, o cérebro passa a se acostumar com esse nível elevado de estímulo, e o mundo real, que exige mais tempo e esforço, pode parecer menos interessante.
Essa dinâmica afeta diretamente a atenção sustentada, dificultando, no futuro, tarefas como ouvir uma história, aprender a ler e escrever.
O Dilema da Linguagem: Onde as Telas Falham
Um dos mitos mais comuns é que vídeos educativos ajudam bebês a falar mais rápido. A ciência mostra o contrário. A linguagem é um processo profundamente social.
O bebê aprende através da observação de expressões faciais, movimento dos lábios, tom de voz e interação responsiva.
Diante das telas, essa interação é interrompida, gerando o chamado efeito de deslocamento: o tempo de tela substitui o tempo de interação real.
Estudos indicam que o uso excessivo antes dos 2 anos está associado a atrasos na linguagem e na comunicação social.
O Impacto na Regulação Emocional e no Sono
As telas muitas vezes funcionam como uma “chupeta digital”, mas isso impede o desenvolvimento da regulação emocional.
A criança não aprende a lidar com frustração, pois é apenas distraída dela. Isso pode levar a irritabilidade, baixa tolerância e dificuldade de autocontrole.
Além disso, a luz azul interfere na produção de melatonina, prejudicando o sono e afetando memória, comportamento e aprendizado.
O que Dizem as Autoridades
As recomendações da OMS e da Sociedade Brasileira de Pediatria são claras:
• 0 a 2 anos: zero telas
• 2 a 5 anos: no máximo 1 hora por dia, com supervisão
Esse período corresponde ao auge da sinaptogênese, quando o cérebro está mais plástico e vulnerável.
Estratégias Práticas para Reduzir o Uso de Telas
- Brincar heurístico: objetos simples estimulam mais que telas
- Zonas livres de tecnologia: especialmente refeições e quarto
- Seja o exemplo: crianças aprendem pelo comportamento dos pais
- Acolha o tédio: essencial para criatividade
- Prefira estímulos auditivos: músicas e histórias em vez de vídeos
Conclusão: Um Convite ao Equilíbrio
Proteger o cérebro do seu filho não é rejeitar a tecnologia, mas entender o tempo certo para cada fase.
Nos primeiros anos, o cérebro precisa de vida real, interação, afeto e experiências concretas para se desenvolver plenamente.
Como neuropsicóloga, o convite é simples e poderoso:
desligue a tela e conecte se com seu filho.
Se esse conteúdo te fez refletir, compartilhe com outros pais e cuidadores. Informação de qualidade pode transformar o futuro de uma criança.
Sobre a Autora
Bianca dos Santos Scheifer é neuropsicóloga, com atuação em diagnóstico, intervenção e tratamento de neurodivergências, com destaque para autismo e TDAH.
Especialista em desenvolvimento infantil, dedica se a traduzir conhecimentos científicos em estratégias práticas para pais e cuidadores.
Atuando em Ponta Grossa, PR, é reconhecida por sua abordagem humanizada e baseada em evidências, auxiliando famílias a compreender e desenvolver o potencial de cada criança.
Referências
[1] Costa, L. J. R. (2025). Impactos neuropsicológicos do uso de telas na infância. Revista Saúde Coletiva. Disponível em: http://revistasaudecoletiva.com.br/index.php/saudecoletiva/article/view/3396/4406
[2] Costa, R. E. A. (2025). Impactos do uso do Tiktok na comunicação e no bem-estar de crianças e adolescentes: uma revisão de literatura. Repositório UFRN. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/bitstreams/81a473d1-68e7-420c-b617-a279beadc0b2/download
[3] Kuhl, P. K. (2007). Is language learning gate-kept by social interaction? The social gate hypothesis. Developmental Science.
[4] Araújo, I. F. M., et al. (2024). O impacto da exposição a telas no desenvolvimento infantil. BJIHS. Disponível em: https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/view/2439
[5] Magalhães, M. V. (2026). Impacto das telas no neurodesenvolvimento. Arace. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/12111
[6] Castelini, D. R. A. G. D. C. (2025). The Deleterious Effects of Excessive Screen Use in Childhood. ResearchGate. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/397697297
[7] Sociedade Brasileira de Pediatria. (2025). Guia de Uso Consciente de Telas na Infância. Disponível em: https://www.sbp.com.br/
[8] Scheifer, B. S. (n.d.). Bianca dos Santos Scheifer. Doctoralia. Disponível em: https://www.doctoralia.com.br/bianca-dos-santos-scheifer/psicologo-psicopedagogo/ponta-grossa