Edison Roberto de Gois
Pós-Graduado em Musicoterapia pela FACUMINAS
O Som como Elo de Conexão
Como a musicoterapia na terceira idade atua na memória, emoções e qualidade de vida dos idosos
O envelhecimento é um processo biopsicossocial complexo, marcado por mudanças fisiológicas, perda de papéis sociais e, frequentemente, o surgimento de patologias neurodegenerativas. Nesse cenário, a musicoterapia emerge não apenas como uma atividade recreativa, mas como uma disciplina da saúde que utiliza a música e seus elementos para fins terapêuticos.
Diferente de “ouvir música”, a musicoterapia é um processo estruturado onde um profissional qualificado estabelece uma relação com o idoso, utilizando a experiência musical para facilitar a comunicação, o aprendizado, a mobilização e a expressão, visando atender necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas.
1. Fundamentos Teóricos e o Conceito de ISO
Para entender a eficácia da música em idosos, é preciso recorrer ao conceito de ISO (Identidade Sonora), desenvolvido por Rolando Benenzon. O ISO é o conjunto de energias sonoras, acústicas e de movimento que pertencem a um indivíduo e o caracterizam.
No idoso, o ISO é vasto. Ele carrega as canções de ninar da infância, os ritmos das festas de juventude, as músicas de seus casamentos e até os sons ambientais de sua época. Quando o musicoterapeuta acessa esse “arquivo sonoro”, ele consegue estabelecer um canal de comunicação com pacientes que, muitas vezes, já perderam a capacidade de expressão verbal. A música atua como uma “chave” que abre portas de memória que pareciam trancadas pelo tempo ou pela doença.
2. A Neurobiologia da Música no Cérebro Idoso
A neurociência explica por que a música é tão resiliente ao envelhecimento. Enquanto a memória episódica (fatos recentes) é uma das primeiras a falhar em quadros de demência, a memória musical é preservada por muito mais tempo.
Isso ocorre porque o processamento musical é holístico e bilateral. Ele envolve:
• Córtex Auditivo: Processamento de tons e ritmos.
• Córtex Motor: Ativado pelo ritmo, auxiliando na coordenação e marcha.
• Sistema Límbico: Responsável pelas emoções e pela liberação de dopamina e endorfina.
• Hipocampo: Ligado à memória de longo prazo.
Em idosos, a estimulação rítmica auditiva pode ajudar a “sincronizar” os neurônios motores, melhorando o equilíbrio e reduzindo o risco de quedas. Além disso, a música reduz os níveis de cortisol, combatendo a ansiedade e a depressão, comuns nesta fase da vida.
3. Musicoterapia e a Doença de Alzheimer
Um dos campos mais promissores da musicoterapia é o tratamento de quadros demenciais, como o Alzheimer. Nestes casos, a intervenção foca em três pilares:
A. Redução de Sintomas Comportamentais
Idosos com Alzheimer frequentemente apresentam agitação, agressividade e perambulação noturna. A musicoterapia receptiva, com músicas de andamento lento e conhecidas pelo paciente, tem um efeito calmante superior a muitos sedativos, sem os efeitos colaterais químicos.
B. O Fenômeno da Reminiscência
Ao ouvir uma canção de sua juventude, o idoso pode experienciar um momento de “lucidez momentânea”. Ele volta a cantar a letra completa, lembra-se de nomes de familiares ou de locais onde viveu. Esse resgate da identidade é fundamental para a dignidade do paciente.
C. Melhora na Comunicação
Muitas vezes, o idoso perde a sintaxe da fala, mas mantém a prosódia (a entonação musical da voz). Através do canto, é possível estimular a articulação das palavras e manter o indivíduo conectado socialmente com seu grupo ou cuidadores.
4. Métodos e Técnicas de Intervenção
O musicoterapeuta utiliza quatro métodos principais, adaptados à fragilidade ou vitalidade do idoso:
4.1. Composição e Escrita de Canções
Indicada para idosos com preservação cognitiva. O grupo ou o indivíduo cria novas letras para melodias conhecidas ou compõe músicas originais sobre suas vidas. Isso trabalha a criatividade e o legado pessoal.
4.2. Improvisação Musical
O uso de instrumentos de percussão simples (pandeiros, xequerês, triângulos) permite que o idoso se expresse sem a pressão de “tocar certo”. A improvisação promove a autonomia e o senso de controle, algo que o idoso muitas vezes perde ao se tornar dependente de terceiros.
4.3. Recriação (Canto em Grupo)
O coral terapêutico é uma das ferramentas mais potentes. Cantar em grupo libera oxitocina, promove o senso de pertencimento e combate a solidão, que é um dos maiores preditores de mortalidade na terceira idade.
4.4. Audição Passiva e Relaxamento
Utilizada para manejo de dor crônica e cuidados paliativos. A música é usada para induzir estados de relaxamento profundo, auxiliando no controle da pressão arterial e na melhoria do padrão de sono.
5. Benefícios Físicos e Reabilitação
A musicoterapia não é apenas “emocional”. Na reabilitação física, ela é usada para:
• Treino de Marcha: O uso de um metrônomo ou música rítmica ajuda idosos com Parkinson a superar o “congelamento” do passo.
• Fisioterapia Motora: Tocar instrumentos como o teclado ou tambores auxilia na motricidade fina e amplitude de movimento dos braços e mãos.
• Capacidade Respiratória: O canto terapêutico fortalece o diafragma e melhora a oxigenação, sendo excelente para idosos com doenças respiratórias crônicas.
6. O Impacto Social e a Luta contra o Isolamento
O isolamento social é uma “epidemia silenciosa” entre idosos. A musicoterapia em grupo quebra as barreiras do isolamento. Ao compartilhar uma preferência musical, idosos descobrem afinidades, iniciam conversas e reconstroem redes de apoio. A música funciona como um lubrificante social, facilitando a interação em casas de repouso (ILPIs) e centros de convivência.
7. Desafios e o Papel do Profissional
É crucial entender que colocar um rádio ligado em uma sala de idosos não é musicoterapia. Para que haja benefício terapêutico, é necessária a presença do musicoterapeuta, que fará:
- Avaliação Inicial: Mapeamento do histórico sonoro e necessidades clínicas.
- Planejamento: Definição de metas (ex: reduzir a ansiedade ou melhorar a memória de curto prazo).
- Monitoramento: Observação das respostas fisiológicas e emocionais durante a sessão.
- Ética: Cuidado para não reativar traumas através de músicas que tragam memórias negativas (o chamado “gatilho”).
8. Musicoterapia e Cuidados Paliativos
No final da vida, a musicoterapia oferece conforto espiritual e emocional. Ela auxilia na “revisão de vida”, permitindo que o idoso se despeça de forma serena. A música, neste estágio, serve para humanizar o ambiente hospitalar e oferecer suporte também aos familiares, criando um espaço de paz e acolhimento.
Conclusão
A musicoterapia aplicada a idosos é uma ponte entre o passado e o presente, entre a patologia e a saúde, entre o isolamento e a conexão. Ela respeita a biografia do indivíduo e oferece uma forma digna e prazerosa de enfrentar os desafios da longevidade. Investir em intervenções musicais é reconhecer que, mesmo quando a mente parece se apagar, a alma continua capaz de vibrar e se emocionar com uma melodia.
Ao integrar a música no cuidado cotidiano, transformamos a velhice de um período de perdas em um período de novas possibilidades expressivas. Como diz o ditado na área: “Onde as palavras falham, a música fala”.
Autor
Edison Roberto de Gois
Pós-Graduado em Musicoterapia pela FACUMINAS
📱 https://wa.me/5542999946698
📧 goismusicoterapeuta@gmail.com
Nota do Corpo São
O conteúdo do Corpo São tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação profissional.
Referências Bibliográficas (Normas ABNT)
Referências Bibliográficas (Normas ABNT) ALCÂNTARA-SILVA, T. R. Musicoterapia aplicada à gerontologia: um olhar sobre o envelhecimento saudável e patológico. 2. ed. Goiânia: Editora UFG, 2018. AMERICAN MUSIC THERAPY ASSOCIATION (AMTA). Music Therapy and Alzheimer’s Disease. Silver Spring: AMTA, 2020. Disponível em: musictherapy.org. Acesso em: 23 mar. 2024. BARCELLOS, L. R. M. Cadernos de Musicoterapia: n. 1, 2 e 3. Rio de Janeiro: Enelivros, 2014. BENENZON, R. O. Teoria da Musicoterapia: contribuição ao conhecimento do contexto não-verbal. Rio de Janeiro: Enelivros, 1988. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria no 849, de 27 de março de 2017. Inclui a Musicoterapia na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no SUS. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017. BRUSCIA, K. E. Definindo Musicoterapia. 3. ed. Rio de Janeiro: Enelivros, 2016. GUAZZELLI, M. E. Musicoterapia e Mal de Alzheimer: o resgate da subjetividade. São Paulo: Apris, 2015. LEVITIN, D. J. A música no seu cérebro: a ciência de uma obsessão humana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. SACKS, O. Alucinações Musicais: relatos sobre a música e o cérebro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. SANTOS, F. S. (Org.). A Arte do Cuidar: saúde, espiritualidade e educação. Bragança Paulista: Comenius, 2010.