Por Bianca dos Santos Scheifer – Neuropsicóloga, CRP 08/20316
Olá, pais e cuidadores! Se você tem um pequeno em casa que acabou de completar dois anos, ou está se aproximando dessa fase, é muito provável que já tenha ouvido falar dos famosos “Terrible Twos”, ou a “crise dos dois anos”. Talvez você esteja vivenciando momentos em que seu filho, antes tão doce, subitamente se joga no chão do supermercado ou grita “não!” para absolutamente tudo.
Quero começar este texto com um convite: respire fundo. O que você está enfrentando não é um sinal de que você está falhando como pai ou mãe, nem que seu filho é “mal educado”. Como neuropsicóloga, meu papel hoje é abrir as cortinas do cérebro infantil para mostrar que o que chamamos de “birra” é, na verdade, um grito de desenvolvimento. É a biologia em sua forma mais pura e necessária.
O Cérebro em Ebulição: Por que os 2 Anos são tão Intensos?
Para entender a crise dos dois anos, precisamos olhar para a arquitetura cerebral. Imagine que o cérebro é uma casa de dois andares.
O andar de baixo, o sistema límbico, é onde moram as emoções intensas, os instintos de sobrevivência e a amígdala cerebral, nosso “alarme” de perigo.
O andar de cima, o córtex pré frontal, é onde reside a razão, o controle de impulsos, a empatia e a capacidade de planejar.
A grande questão é que, aos dois anos, o andar de baixo está a todo vapor, mas o andar de cima ainda está em obras pesadas. O córtex pré frontal é a última parte do cérebro a amadurecer, um processo que só se completa por volta dos 25 anos.
Portanto, pedir que uma criança de dois anos “se acalme sozinha” ou “pense no que fez” é o equivalente biológico a pedir que ela dirija um carro: ela simplesmente não possui as ferramentas neurológicas para isso.
Nesta fase, a criança está descobrindo que é um indivíduo separado de seus pais. Ela quer exercer sua vontade, mas ainda não tem linguagem suficiente para expressar o que sente, nem maturidade emocional para lidar com a frustração quando algo não sai como planejado.
O resultado? Um curto circuito emocional que chamamos de birra.
A Amígdala no Comando: O Mecanismo da Crise
Quando uma criança entra em uma crise de birra, a amígdala cerebral assume o controle total. Ela envia sinais de “luta ou fuga”, inundando o corpo de cortisol e adrenalina. Nesse momento, a criança entra em um estado de desregulação profunda.
Ela não está “escolhendo” se comportar mal. Ela está, literalmente, fora de controle.
É por isso que tentar racionalizar durante a crise, dizendo frases como:
“Filho, não precisa gritar, a mamãe já disse que não pode.”
raramente funciona.
O “andar de cima” do cérebro está desconectado. A criança não consegue processar informações lógicas enquanto está sob o domínio da amígdala.
O foco, portanto, não deve ser a correção do comportamento naquele instante, mas sim a co regulação.
Co regulação: O Papel do Adulto como Porto Seguro
Se o cérebro da criança não consegue se acalmar sozinho, ele precisa de um cérebro maduro para fazer isso por ele. Isso é o que chamamos de co regulação.
Quando você se mantém calmo diante do caos, seu sistema nervoso envia sinais de segurança para o sistema nervoso da criança. Através dos neurônios espelho, ela começa a “copiar” a sua calma.
A parentalidade consciente nos ensina que não somos adversários dos nossos filhos nesses momentos, mas sim seus guias.
Validar a emoção é o primeiro passo:
“Eu vejo que você está muito bravo porque queria aquele brinquedo. É difícil esperar, eu entendo.”
Validar não significa ceder ao desejo da criança, mas sim reconhecer que o sentimento dela é real e legítimo.
Estratégias Práticas: O que Fazer Antes, Durante e Depois

Para navegar pelos “Terrible Twos” com mais leveza, precisamos de estratégias que respeitem o neurodesenvolvimento.
1. Antes da Crise: Prevenção e Conexão
Muitas birras podem ser evitadas se anteciparmos as necessidades básicas. Fome, sono e cansaço são os maiores gatilhos para a desregulação.
Além disso, oferecer escolhas limitadas ajuda a criança a sentir que tem algum controle:
“Você quer vestir a camiseta azul ou a amarela?”
Isso reduz a necessidade de oposição constante.
2. Durante a Crise: Segurança e Presença
Mantenha a criança segura e fique por perto.
Se ela permitir, ofereça um abraço. O toque libera ocitocina, que ajuda a baixar o cortisol.
Se ela não quiser ser tocada, apenas diga:
“Estou aqui com você até você se sentir melhor.”
Evite plateias e, se possível, leve a criança para um lugar mais calmo.
O silêncio e a sua presença tranquila são as ferramentas mais poderosas.
3. Depois da Crise: O Momento do Aprendizado
Só depois que a tempestade passou e a criança está calma é que o “andar de cima” volta a funcionar.
Esse é o momento de conversar, de forma simples e breve, sobre o que aconteceu:
“Você ficou muito triste, não foi? Da próxima vez, vamos tentar respirar fundo juntos.”
É aqui que o aprendizado real acontece, não no meio do grito.
A Saúde Mental dos Pais: Quem Cuida de Quem Cuida?
Não posso falar de regulação infantil sem falar da regulação dos pais.
É impossível ser um porto seguro se você está naufragando.
As crises dos dois anos testam nossos limites mais profundos e, muitas vezes, ativam nossas próprias feridas de infância.
Se você sente que vai perder o controle, é perfeitamente aceitável garantir que a criança esteja em um lugar seguro e se afastar por dois minutos para respirar.
A sua autorregulação é o pré requisito para a co regulação do seu filho.
Lembre se: você não precisa ser perfeito. Precisa ser presente e consciente.
Conclusão: Uma Fase de Grandes Conquistas
Apesar do nome “terrível”, os dois anos são uma fase de descobertas incríveis.
É quando a personalidade floresce, a linguagem explode e a autonomia começa a ganhar forma.
As birras são apenas o efeito colateral de um cérebro que está crescendo rápido demais.
Ao olhar para o seu filho no meio de uma crise, tente ver não uma criança difícil, mas uma criança passando por um momento difícil.
Com paciência, conhecimento e muito afeto, você estará ajudando a construir um cérebro resiliente e emocionalmente saudável.
Essa fase vai passar, mas o vínculo que você constrói ao acolher essas tempestades ficará para sempre.
Sobre a Autora
Bianca dos Santos Scheifer é Neuropsicóloga, CRP 08/20316, com vasta experiência em diagnóstico, intervenção e tratamento de neurodivergências, com destaque em Autismo e TDAH.
Sua paixão pelo desenvolvimento infantil a impulsionou a aprofundar se na primeira infância, com foco em traduzir conhecimentos complexos em estratégias práticas e acolhedoras para pais e cuidadores.
Atuando em Ponta Grossa, Paraná, Bianca é reconhecida por sua abordagem humanizada e baseada em evidências, auxiliando famílias a compreender e otimizar o potencial único de cada criança.
instagram:@biancasheifer
Nota do Corpo São: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo, não substituindo avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional individualizado. Cada criança possui um desenvolvimento único, e comportamentos podem variar conforme fatores emocionais, neurológicos e ambientais. Em casos de sofrimento intenso, dificuldades persistentes ou dúvidas sobre o desenvolvimento infantil, procure orientação com profissionais qualificados da saúde mental e do desenvolvimento infantil.
Referências
[1] Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2012). The Whole-Brain Child: 12 Revolutionary Strategies to Nurture Your Child’s Developing Mind. Bantam.
[2] Arain, M., et al. (2013). Maturation of the adolescent brain. Neuropsychiatric Disease and Treatment. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3621648/
[3] Barbosa, J. C., et al. (2026). Compreensão do funcionamento do sistema límbico frente à realidade do centro de atenção psicossocial infantil. Cuadernos de Educación y Desarrollo. Disponível em: https://ojs.cuadernoseducacion.com/ojs/index.php/ced/article/view/10551
[4] Feldman, R. (2025). Neurobiology of the Parental Brain and the Development of Emotion Regulation. Estudo longitudinal sobre sensibilidade e regulação.
[5] Torres, J. (2026). Cérebro e Espírito: A Plasticidade Cerebral e os Novos Caminhos da Educação e Saúde Mental. Foco em conectividade pré-frontal e amígdala.
[6] Scheifer, B. S. (n.d.). Bianca dos Santos Scheifer. Doctoralia. Disponível em: https://www.doctoralia.com.br/bianca-dos-santos-scheifer/psicologo-psicopedagogo/ponta-grossa