Por Bianca Scheifer – Neuropsicóloga (CRP 08/20316)
O que saiu de novo · #1 — a ciência do desenvolvimento, em português e com a minha leitura de consultório.
Três pesquisas importantes olharam telas e fala de um jeito novo: o celular de quem cuida pesa, e a preocupação da mãe é dado clínico. Leitura de uma neuropsicóloga.
A mãe chegou com o filho de 1 ano e 10 meses e uma frase pronta: “Eu sei que é a tela. Eu deixei demais.” Ela já tinha tirado a TV, escondido o tablet e passado duas semanas se culpando. O menino falava quatro palavras. Antes de olhar pra ele, eu perguntei uma coisa que ela não esperava: quanto tempo ela ficava no celular quando os dois estavam juntos.
Não era pra culpar. Era porque, em 2026, três pesquisas mudaram o jeito de olhar pra essa conversa. E nenhuma delas está sendo contada pra mãe.
O que a pesquisa descobriu
1. O celular de quem cuida pesou mais que a tela da criança
Um grupo da Universidade de Oslo acompanhou 747 crianças norueguesas por três anos, dos 4–5 aos 7 anos, com teste de linguagem a cada ano. O estudo saiu no JAMA Pediatrics, uma das revistas mais rigorosas de pediatria, em agosto.
Eles mediram tudo: o tempo de tela da criança, se ela tinha um aparelho próprio, e o tempo de celular do pai ou da mãe que mais cuidava dela, puxado direto do registro do aparelho. Esses adultos passavam, em média, 3 horas e 13 minutos por dia no celular.
O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores. O tempo de tela da criança não se associou ao ritmo em que o vocabulário dela crescia. O tempo de celular do adulto, sim: cada hora a mais por dia no celular do cuidador correspondeu a um crescimento um pouco menor do vocabulário da criança ao longo dos anos. O efeito é modesto, mas apareceu mesmo depois de descontar escolaridade e renda da família.
A leitura deles é simples: hora de celular do adulto é hora que não vira conversa, leitura junta, pergunta e resposta. E é da troca que a linguagem cresce.
O que o estudo não prova: que o celular causa o atraso. Mediram o uso só uma vez, de um dos pais, e não olharam o que a criança via na tela. É associação. Mas é a primeira vez que alguém separa com esse cuidado o que a criança já tinha quando começou do quanto ela cresceu depois.
2. 158 estudos sobre bebês de 0 a 3 anos, uma conclusão
Uma revisão publicada em junho na Acta Psychologica juntou 158 estudos, feitos desde que o smartphone existe (2007) até 2024, todos sobre crianças de 0 a 36 meses. São 539 achados sobre sono, linguagem, atenção, motricidade e comportamento.
A conclusão não é “tela faz mal”. É mais útil que isso: o efeito da tela depende do conteúdo, do contexto e, acima de tudo, de quanta interação humana acompanha aquele momento. O mesmo desenho, visto no colo com alguém nomeando o que aparece, não é a mesma coisa que o mesmo desenho sozinho no quarto.
Isso casa com o estudo de Oslo. Não é o cronômetro que protege. É quem está do lado, e se esse alguém está olhando pra criança ou pro próprio celular.
3. A preocupação da mãe aparece antes de qualquer teste
O terceiro estudo vem do grupo de Lonnie Zwaigenbaum, no Canadá, um dos que mais estudou sinais precoces de autismo no mundo. Publicado em janeiro na Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry, ele acompanhou 72 bebês que tinham um irmão mais velho autista e que, mais tarde, também receberam o diagnóstico.
Dos 6 aos 24 meses, os pais responderam seis vezes se tinham alguma preocupação, em dez áreas do desenvolvimento. O que os pesquisadores viram: as preocupações dos pais acompanham a idade em que o diagnóstico chega, e cada criança mostrou um caminho diferente. Algumas preocupavam aos 6 meses, outras só aos 18. Não ter sinal aos 12 meses não significava que não viria.
A recomendação deles é direta: o relato dos pais sobre o que percebem cedo é informação clínica, e levá-lo a sério pode reduzir a idade do diagnóstico. Outro estudo, de 2025, com 853 famílias, mediu o atraso: em média, 14 meses entre a primeira preocupação dos pais e o diagnóstico.
O que isso muda na prática

Nenhuma dessas pesquisas pede que você jogue o celular fora. Elas pedem outra coisa:
- Conte as horas do adulto, não só as da criança. O celular do seu aparelho mostra isso em “tempo de uso”. Olhe sem julgamento; é um número, não uma nota.
- Escolha dois momentos do dia sem celular por perto. Não o dia inteiro: a refeição e o banho, por exemplo. É nesses momentos que a conversa de ida e volta acontece.
- Quando a tela acontecer, esteja junto. Nomeie, pergunte, repita o que a criança disse. A revisão dos 158 estudos é clara: a companhia muda o efeito.
- Se você percebeu algo, anote a data. O que você viu, com que idade. Isso vale mais que qualquer lista de sinais da internet, porque é o seu filho.
O que eu olho no consultório
Quando uma mãe me diz “é a tela”, eu não respondo sim nem não. Eu pergunto como é a hora do café da manhã na casa dela. Pergunto quem fala com o bebê enquanto troca a fralda. E pergunto o que ela percebeu primeiro, e quando.
Depois eu sento no tapete com a criança. Não aplico teste em bebê; eu brinco e observo se ele olha pra mim quando eu olho pra ele, se aponta pra me mostrar alguma coisa, se vira quando chamo pelo nome, se imita um gesto meu. A fala é o que a mãe vê. O que está por baixo da fala é o que eu vejo.
O menino de quatro palavras daquela consulta não tinha atraso de linguagem por causa da tela. Ele tinha pouca troca, e isso tem conserto. A mãe saiu com três combinados simples e voltou dois meses depois com um filho que dizia “mamãe, olha”. É isso que o Check-up do Desenvolvimento faz: olha o que está por baixo, com a mãe, em uma sessão, e devolve um mapa de onde a criança está e o que fazer agora. [link do Check-up]
Perguntas que chegam no direct
Tela causa atraso na fala?
As pesquisas mostram associação, não causa. O que aparece com mais consistência é que tela sem companhia tira tempo de conversa, e é da conversa que a fala cresce. A tela em si pesa menos que o silêncio em volta dela.
Meu filho de 2 anos fala pouco. Devo esperar?
Aos 24 meses, a maior parte das crianças já junta duas palavras. Se o seu filho não faz isso, não responde ao nome ou parou de fazer algo que fazia, não espere a próxima consulta. Avaliar cedo não rotula; só mostra onde ele está.
O pediatra disse que é normal, mas eu sinto que não é. Sou exagerada?
Os estudos de 2025 e 2026 dizem que não. A preocupação dos pais costuma aparecer meses antes de qualquer teste pegar alguma coisa. Vale pedir uma avaliação do desenvolvimento e levar a sua anotação de quando começou.
Na próxima edição: está todo mundo virando autista? Um estudo com 62 mil crianças respondeu.
Não perca!
Sobre a autora
Bianca dos Santos Scheifer é neuropsicóloga (CRP 08/20316) e atende famílias de bebês e crianças pequenas em Ponta Grossa, PR, presencial e online. Toda terça publica “O que saiu de novo” no Instagram @biancascheifer. [link combinado com o blog]
Nota Corpo São
O desenvolvimento da fala infantil depende de diversos fatores, incluindo as interações familiares, o ambiente e as características individuais de cada criança. Embora pesquisas apontem associações entre o uso excessivo de telas e aspectos do desenvolvimento da linguagem, isso não significa que o celular seja a causa direta de atrasos na fala. A atenção, o diálogo e a convivência são fundamentais nos primeiros anos de vida.
Este conteúdo, elaborado pela neuropsicóloga Bianca dos Santos Scheifer, tem caráter informativo e educativo e não substitui uma avaliação profissional individualizada. Diante de dúvidas ou sinais de atraso no desenvolvimento, procure orientação de um pediatra ou profissional especializado. Observar cedo é importante, mas investigar com responsabilidade é essencial.
Referências científicas
1. CHENG, Y. et al. (2026)
The impact of screen-based media exposure on infant and toddler development: a systematic review of psychological and behavioral domains.
Revista: Acta Psychologica, v. 266, 106438.
2. CLINTBERG, K. et al. (2026)
Parental concerns correspond to earliest age of autism diagnosis in increased likelihood infant cohort.
Revista: Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry, v. 4.
3. LEACH, M.; MAZEFSKY, C. A.; NORTHRUP, J. B. (2025)
Parents’ early concerns about their child with autism: relation to age of diagnosis.
Revista: Journal of Autism and Developmental Disorders.
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4. YANG, J. et al. (2026)
Screen use and children’s language development from ages 5 to 7 years.
Revista: JAMA Pediatrics, publicado on-line em 17 de agosto de 2026.