A fiscalização de motoristas que dirigem sob efeito de substâncias psicoativas está ganhando uma nova ferramenta no Brasil. Além do conhecido bafômetro, a regulamentação abre caminho para o uso do chamado “drogômetro”, equipamento capaz de analisar o fluido oral, como a saliva, e identificar determinadas drogas e substâncias psicoativas.

A novidade chama atenção porque os testes não se restringem às drogas ilícitas. Alguns medicamentos de uso controlado também podem conter substâncias capazes de aparecer em testes toxicológicos.

Isso levanta uma questão importante: quem usa Venvanse, tramadol ou outros medicamentos prescritos pode ter problemas em uma blitz?

A resposta não é simplesmente “sim” ou “não”. Entenda.

O que é o drogômetro?

O nome “drogômetro” é uma forma popular de se referir aos equipamentos utilizados para fazer testes de triagem de substâncias psicoativas, inclusive por meio do fluido oral.

Enquanto o bafômetro procura identificar álcool, esses aparelhos podem pesquisar outras substâncias.

Dependendo do modelo e da tecnologia empregada, os testes podem identificar classes ou substâncias relacionadas a:

THC, presente na cannabis

Cocaína

Anfetaminas e metanfetaminas

Opioides

Cetamina

entre outras.

É importante ressaltar que a capacidade de detecção varia conforme o equipamento utilizado. Portanto, não existe uma lista única que possa ser atribuída a todo e qualquer “drogômetro”.

Cannabis e cocaína poderão ser detectadas?

Sim. Tecnologias de análise de fluido oral podem ser utilizadas para pesquisar substâncias relacionadas à cannabis e à cocaína, entre outras drogas.

A ideia é oferecer aos agentes de trânsito mais uma ferramenta para identificar situações em que exista suspeita de condução sob influência de substâncias psicoativas.

Mas existe uma diferença fundamental entre detectar uma substância no organismo e comprovar que aquela pessoa estava incapaz de dirigir com segurança.

E é justamente aí que muita informação publicada nas redes sociais pode causar confusão.

Deu positivo no drogômetro: o motorista será multado automaticamente?

Não se deve interpretar um resultado de triagem isoladamente como uma multa automática.

A legislação de trânsito trata da condução de veículo sob influência de substâncias psicoativas e da alteração da capacidade psicomotora.

Por isso, a fiscalização pode considerar outros elementos, como sinais apresentados pelo motorista, procedimentos previstos pela autoridade de trânsito e, quando necessário, exames complementares ou confirmatórios.

Um teste de triagem pode indicar que determinada substância foi encontrada, mas isso não significa necessariamente que o motorista esteja naquele momento com sua capacidade de dirigir comprometida.

Essa distinção é especialmente importante quando falamos de medicamentos prescritos.

E quem toma Venvanse?

O Venvanse tem como princípio ativo a lisdexanfetamina, medicamento utilizado principalmente no tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e, em determinadas situações, do transtorno de compulsão alimentar.

A lisdexanfetamina é uma substância sujeita a controle especial no Brasil.

Dependendo da tecnologia utilizada no teste, medicamentos relacionados à classe das anfetaminas podem ter relevância na interpretação de uma triagem toxicológica.

Isso, porém, não transforma automaticamente um paciente que utiliza o medicamento corretamente em um usuário de droga ilícita nem significa que ele será automaticamente autuado.

E o tramadol?

O tramadol é um analgésico opioide utilizado no tratamento de determinados tipos de dor.

Assim como acontece com outras substâncias de ação no sistema nervoso central, seu uso merece atenção especial quando a pessoa precisa dirigir.

Além da possibilidade de opioides fazerem parte dos painéis pesquisados por determinados testes, o próprio medicamento pode provocar efeitos adversos, como sonolência, tontura e alterações capazes de prejudicar a condução de veículos em algumas pessoas.

Portanto, a preocupação não deve ser apenas “será que o teste vai detectar meu remédio?”, mas também:

“Este medicamento está afetando minha capacidade de dirigir?”

Receita médica permite dirigir normalmente?

Não necessariamente.

Ter uma prescrição comprova que existe uma indicação médica para o tratamento, mas não significa que seja seguro dirigir em qualquer circunstância.

Um medicamento legal e corretamente prescrito pode provocar:

sonolência

tontura

diminuição da atenção

alteração dos reflexos

confusão ou redução do estado de alerta

Se isso acontecer, dirigir pode representar risco tanto para o paciente quanto para outras pessoas.

Por isso, as advertências da bula e as orientações do médico devem ser respeitadas.

E a cannabis medicinal?

Esse é outro ponto que tende a gerar muitas dúvidas.

Uma pessoa pode utilizar um produto à base de cannabis por indicação médica, mas isso não significa que esteja automaticamente liberada para dirigir sob seus efeitos.

Produtos contendo THC podem ter efeitos sobre percepção, atenção, coordenação e tempo de reação.

Além disso, testes de fluido oral podem pesquisar THC.

Portanto, é preciso distinguir três coisas: uso medicinal autorizado, presença da substância no organismo e capacidade psicomotora para conduzir um veículo.

São questões relacionadas, mas não são exatamente a mesma coisa.

Devo parar meu medicamento para não aparecer no teste?

Não.

Esse talvez seja o alerta de saúde mais importante desta matéria.

Quem utiliza Venvanse, tramadol ou qualquer outro medicamento controlado não deve interromper, reduzir ou alterar o tratamento por conta própria por medo de uma fiscalização.

A decisão sobre o tratamento deve ser tomada juntamente com o médico.

Se você utiliza um medicamento que atua no sistema nervoso central e dirige regularmente, pergunte ao profissional:

Posso dirigir enquanto estiver tomando este medicamento?

Ele pode comprometer meus reflexos ou atenção?

Existe algum período após a dose em que devo evitar dirigir?

Essas informações são muito mais importantes para sua segurança do que simplesmente saber se determinada substância pode ser detectada.

Preciso carregar a receita médica no carro?

A receita não funciona como um salvo-conduto que permite dirigir com a capacidade psicomotora alterada.

Por outro lado, quem utiliza continuamente medicamentos sujeitos a controle especial pode considerar prudente manter sua documentação médica e prescrições organizadas e acessíveis, principalmente para demonstrar o uso terapêutico legítimo caso seja necessário esclarecer a presença de determinada substância.

Isso não substitui os procedimentos previstos na legislação nem garante que uma eventual autuação seja descartada.

O drogômetro vai substituir o bafômetro?

Não.

São ferramentas destinadas a situações diferentes.

O bafômetro continua sendo utilizado para verificar álcool, enquanto os testes de fluido oral podem ampliar a capacidade de fiscalização de outras substâncias psicoativas.

Também não significa que, de uma hora para outra, todas as blitzes do país passarão a utilizar drogômetros. A adoção depende dos órgãos fiscalizadores, dos equipamentos disponíveis e do cumprimento dos requisitos técnicos e regulamentares.

O que muda para o motorista?

Para a maioria das pessoas, a principal mensagem é simples: a regra básica continua sendo não dirigir quando álcool, drogas ou medicamentos estiverem comprometendo sua capacidade de conduzir um veículo com segurança.

A tecnologia apenas amplia as ferramentas disponíveis para a fiscalização.

Para quem faz tratamento com medicamentos controlados, surge uma razão adicional para conversar com o médico sobre direção de veículos e conhecer os efeitos do medicamento utilizado.

Nota Corpo São

Remédio prescrito não significa automaticamente remédio seguro para dirigir.

O medo do drogômetro não deve ser motivo para abandonar ou alterar um tratamento médico. Medicamentos controlados podem ser necessários e seguros quando utilizados corretamente, mas alguns podem afetar atenção, reflexos ou capacidade de dirigir.

Se você usa medicamentos como Venvanse, tramadol ou produtos à base de cannabis, converse com seu médico sobre a condução de veículos. Ter prescrição médica não significa que seja seguro dirigir sob efeitos que comprometam a capacidade psicomotora.

E atenção: a detecção de uma substância em um teste de triagem não deve ser confundida automaticamente com uso ilícito ou direção sob efeito de drogas.

Você usa algum medicamento controlado e dirige com frequência? Esta nova fiscalização pode gerar muitas dúvidas. Compartilhe esta matéria com amigos e familiares para que mais pessoas saibam o que o drogômetro pode detectar e, principalmente, entendam que medicamento prescrito nunca deve ser interrompido por conta própria.

Fontes e referências

Ministério dos Transportes — Contran atualiza regras da Lei Seca e procedimentos de fiscalização
Explica a Resolução nº 1.031/2026 e as mudanças nos procedimentos de fiscalização.
Acessar Ministério dos Transportes

Polícia Rodoviária Federal — Nova resolução abre caminho para uso futuro de drogômetros
É especialmente importante para a matéria porque esclarece que a PRF não começará a multar imediatamente usando drogômetros e que o equipamento ainda não faz parte de sua operação contínua.
Acessar a matéria oficial da PRF

Ministério dos Transportes — Resoluções do Contran
Página oficial que registra a Resolução nº 1.031, de 17 de agosto de 2026, referente à fiscalização do consumo de álcool ou outras substâncias psicoativas.
Consultar as Resoluções do Contran

Anvisa — Lista de substâncias sujeitas a controle especial no Brasil
Fonte importante para sustentar a parte sobre medicamentos controlados, incluindo a lisdexanfetamina, princípio ativo do Venvanse.
Consultar a lista oficial da Anvisa

Anvisa — Produtos à base de cannabis
A Anvisa mantém regulamentação específica para produtos de cannabis de uso medicinal; documentos regulatórios também alertam que determinados produtos podem causar sonolência e redução da atenção e da capacidade de dirigir.
Informações oficiais da Anvisa sobre produtos de cannabis